Se você deseja conhecer a integridade de um líder, observe os detalhes. Conheça-o na informalidade do lar, no trato com amigos chegados, na conversa ao telefone.
O conselho bíblico de sermos fiéis no pouco para sermos colocados sobre o muito pressupõe um grau de dificuldade e detalhamento. O pouco nos prova, como também nos expõe - é, portanto, no pouco, nos detalhes da vida, que podemos diagnosticar nossas carências e limitações, e ali aprender com o Mestre. Platão, o célebre filósofo grego, foi claro: "Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa". A informalidade nos expõe com maior freqüência, pois nos encontra em estado de espontaneidade.
Calar-se - Vivemos em uma sociedade onde o simbolismo é elemento definidor das relações humanas. Assim, valorizamos a comunicação verbal, os discursos, as respostas bem colocadas, o jogo de palavras. Se por um lado isto colabora para desenvolver uma comunicação mais ativa, por outro tem nos levado a esquecer o valor do silêncio. A integridade de um líder é testada na adversidade e uma das atitudes mais comuns perante a adversidade relacional é o confronto. Freqüentemente, falamos quando deveríamos nos calar, especialmente em contextos ministeriais onde as críticas nos bastidores ganham a nossa atenção - e somos levados a reagir de forma desproporcional, desnecessária ou mesmo inapropriada.
Certamente há momentos de falar, de fazer-se ouvir. Mas reconheço que os homens de Deus que tenho conhecido buscavam mais o silêncio do que o confronto verbal perante as adversidades, e faziam a obra do Senhor. Um dos grandes investimentos que podemos fazer em relação ao outro é justamente ouvi-lo. Lincoln dizia que, ao dialogar com alguém, gastava um terço do tempo pensando no que falar e dois terços pensando no que o outro falava.
A maior dificuldade para se ouvir é quando não é preciso ouvir. Penso aqui em uma figura de autoridade que, em sua função - seja um professor, um chefe, um líder de equipe ou um pastor -, não precisaria ouvir e poderia tão somente falar. Talvez esse seja um dos maiores e mais freqüentes riscos da liderança.
Não negociar a verdade - O texto de Provérbios 12:19 diz que "o lábio verdadeiro permanece para sempre; mas a língua mentirosa, apenas por um momento". Há certos valores que precisam estar sempre presentes em nossas vidas, relacionamentos e processos de liderança. Um deles é não negociar a verdade. Isto inclui, de forma especial, a manipulação da verdade. Quando a Palavra nos ensina que a posição do crente, o seu falar, deve ser "sim, sim", "não, não", o que se advoga não é uma atitude de extremos; o assunto aqui é a verdade: dizer "sim" quando for sim e "não" quando for não. No cenário do genuíno cristianismo, a verdade não pode ser negociada. Ela é um dos grandes blocos que constrói uma vida íntegra.
Abraham Lincoln foi um dos estadistas mais atacados em toda a história dos Estados Unidos da América. Foi chamado de desonesto, corrupto, incapaz, mentiroso e adúltero. O Illinois State Register referia-se a ele como o "político mais desonesto da história americana". Todavia, quando aconselhado a negociar benefícios para os donos dos grandes jornais a fim de que sua imagem fosse poupada, Lincoln respondeu: "Quando deixar este escritório, gostaria de sair com um amigo fiel ao meu lado: minha consciência".
Ao falar sobre a verdade de forma mais objetiva (o que é verdadeiro), podemos dar a entender, erroneamente, que esta é a única forma de verdade que importa. Mas há uma verdade subjetiva a qual também devemos valorizar - trata-se da verdade volitiva, ou seja, os motivos que nos levam a agir e reagir, a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, inclusive a falar e calar. Tais verdades motivacionais precisam ser observadas de perto, pois elas representam o atual estado de nosso coração. Muitos líderes podem desenvolver realizações corretas por motivações erradas. A integridade que não negocia a verdade, seja objetiva ou subjetiva, alimenta um caráter mais parecido com Cristo.
Assumir a responsabilidade - Quando nos posicionamos ao lado da verdade, normalmente somos chamados a assumir responsabilidades, seja pela irredutível defesa de algo que no senso comum poderia passar despercebido, seja por falhas e pecados em nossas vidas que precisam ser confrontados, perdoados e abandonados.
Segundo o escritor francês François la Rochefoucauld, quase todas as nossas falhas são mais perdoáveis do que os métodos que concebemos para escondê-las. Uma vida íntegra leva em consideração a possibilidade da falha, do pecado e da queda. Ou seja, precisamos assumir a responsabilidade perante nossas atitudes, a fim de mantermos a integridade espiritual e moral. E esta é uma das lições mais difíceis de serem aprendidas. O caminho aparentemente mais curto no caso de uma queda - a negação do pecado e sua responsabilidade sobre ele - não é de fato curto, pois não nos leva aonde Deus nos quer.
Há líderes que possuem grande dificuldade de pedir perdão de maneira verbal e clara, ou de voltar atrás em decisões tomadas mesmo quando francamente equivocadas. Esta postura provém de um coração soberbo. É o sentimento de soberba que os faz pensar sobre a sua suposta superioridade - talvez, nutrida pelo seu conhecimento, ou pela posição de liderança, ou ainda em face de sua função de destaque, de seus ganhos ou merecimentos. Muitos não percebem, porém, que este é o caminho de morte. Seu coração se lança em uma rota de colisão com o temor do Senhor e a sabedoria, o entendimento de que somos todos igualmente dependentes da graça de Cristo para viver.
Há também aqueles que, ao reconhecer um erro e assumir a responsabilidade, fazem-no sob protesto e acusações. São os que, perante seu próprio pecado, racionalizam que o outro também pecou, que não foi leal ou submisso. Grande erro. Estas razões não passam de sombras nas quais tentam esconder seus próprios corações da humildade necessária para o quebrantamento.
Leon Tolstoi dizia que "todos pensam em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo", atestando que é sempre mais fácil falar sobre os problemas universais do que sobre o pecado do coração. Já Wertheimer escreveu que "somente depois de as termos praticado é que as faltas nos mostram quão facilmente as poderíamos ter evitado".
Que Deus nos ajude a administrar o orgulho e a vergonha, bem como a eventual humilhação, a fim de assumirmos a responsabilidade pelo pecado e seguirmos em frente no perdão transformador do Senhor.
Aprender com os erros - Precisamos compreender que integridade não é uma atitude medida pela ausência de erros, mas pela decisão em não repeti-los. Quando assumimos responsabilidades, fazemo-lo também em relação aos nossos erros. Precisamos compreender que integridade é um hábito que se ganha na rotina diária, quando procuramos agir de forma pura e justa. Mesmo quando isso não acontece, devemos aprender com nossos erros. Para que assim caminhemos será preciso, primeiramente, desmistificá-los. Dale Carnegie escreveu, na década de 1950, o livro Como evitar preocupações e começar a viver. Nesta obra, Carnegie ensina que devemos deixar o medo de encarar os nossos erros; antes devemos analisá-los e compreendê-los. Ele usa William James para nos ensinar que a aceitação do que aconteceu é o primeiro passo para se vencer as conseqüências de qualquer infortúnio.
Para aprendermos com nossos erros é necessário levá-los a sério. Um temperamento explosivo não é apenas um temperamento forte, mas algo que machuca pessoas, entristece o Espírito Santo pela falta de domínio próprio e nos pretere de vivermos mais tranquilos com nossas próprias reações. A crítica não é apenas uma questão de objetividade, ou de ser direto, como muitas vezes justificamos. A crítica compulsiva é um agente do diabo para a destruição da vida alheia. Trata-se de um desencorajamento que pode marcar uma pessoa pelo resto de sua vida, além de um mecanismo que faz o coração do crítico adoecer com a amargura. Não conheço pessoas críticas felizes.
C.S.Lewis nos ensina que "quando um homem se torna melhor, compreende cada vez mais claramente o mal que ainda existe em si. Quando um homem se torna pior, percebe cada vez menos a sua própria maldade". Para aprendermos com nossos erros é necessário levá-los a sério, conversar com o Pai sobre eles, pedir forças para mudarmos e amadurecermos, crescendo sempre um pouco mais.
Compreender a marcante diferença entre caráter e reputação não pressupõe que faremos uma escolha legítima. É preciso estar disposto a priorizar a verdade. O mesmo Lincoln gostava de afirmar que "caráter é como uma árvore, e reputação, a sombra. A sombra é o que nós pensamos sobre isso. A árvore é a realidade". Muitas vezes confundimos inteligência, conhecimento e sabedoria. Podemos aplicar as palavras "a inteligência é uma espada; o caráter, a empunhadeira", de Bodenstedt, dizendo que é o caráter que delineará a sabedoria no agir. Outras vezes confundimos temperamento brando com bom caráter. Ao contrário, como disse Pierre Azaïz, "o caráter é a esperança do temperamento". Um temperamento brando, quieto ou mais vagaroso pode dar a impressão de domínio próprio, escondendo as paixões mais carnais.
Mas o Senhor nos sonda e nos conhece e julga-nos com exatidão, pesa a nossa alma e avalia todos os nossos sentimentos mais profundos. Você é quem Deus diz que você é. Convictos desta verdade, é preciso crescer. Não priorize o crescimento da sua reputação, ministério ou carreira. São coisas importantes, porém transitórias. Priorize o crescimento do seu caráter e sua vida com o Pai. Enfim, escolha a melhor parte.
Ronaldo Lidório é pastor presbiteriano e missionário ligado a AMEM e APMT. É doutor em antropologia e líder de uma equipe missionária na Amazônia. Casado com Rossana é pai de dois filhos.
FONTE: http://www.esutes.com.br/