Rebanho ou Curral?

Em julho do ano passado o André Diniz publicou em sua página pessoal no Spaces um inteligente e reflexivo texto sobre evangélicos e política no Brasil. Transcrevo-o aqui, na Etiqueta - Textus Selectus - na integra desejando que aos leitores desse blog, e outros, o mesmo provoque uma inteligente e profunda dicussão sobre o tema verbalizado.

Boa leitura!!

Um rebanho é um conjunto de animais livres, que orienta o seu caminho por meio de um pastor que, com habilidade e maestria, o faz percorrer pelos melhores pastos e descansar nas melhores paragens. Um curral, de outro modo, é um conjunto de animais que se encontra trancafiado em cercas, dividindo pouco espaço e se debatendo uns contra os outros. Num rebanho, há variedade e ao mesmo tempo consenso, enquanto que num curral há amorfia e uma coerciva concordância.

As duas condições se referem aos animais, mas também podem ser consideradas como símbolos da situação da própria igreja, principalmente no que se refere ao posicionamento político. Todas as vezes que alguém menciona os evangélicos no Brasil o faz como se falasse de um grupo pronto a receber imposições e a adotar uma opinião irrefletida.

Pelo menos é o que parece quando se escuta políticos como Marcelo Crivela e Anthony Garotinho. Os dois se avocam como líderes evangélicos capazes de convencer (ou converter) multidões de eleitores a votar em quem quer que seja. Não é à toa que o presidente Lula, em preparação para a campanha política deste ano, tentou se aproximar dos dois, como relatou ultimamente a imprensa.

E talvez o leitor me pergunte se de fato estes políticos não possuem este poder? E, de fato, eu não posso negar. O que eu não posso, porém, é consentir. Não posso concordar com a repetição de um erro histórico que marca a cultura política latino-americana. Em Democracia Delegativa, o cientista política Guilherme O´Connell aponta a construção de um sistema representativo de cima para baixo, pouco eficiente e instável. E, quando analisamos o comportamento político evangélico, podemos radiografar com perfeição este sistema.

O objetivo de muitos evangélicos é o de se apropriar do poder, mesmo que sem qualquer projeto político, mesmo que sem qualquer pauta pré-definida ou pré-acordada com grupos de base. Simplesmente, “coroamos a um suposto Davi”, esperando que isto cumpra os desígnios de Deus para a nação. Quanta ingenuidade há nesta postura.

Enquanto não houver organização de pautas, não houver mobilização de base e enquanto o candidato for apenas um visitante na igreja, avançaremos pouco. Neste sentido, cabe aos segmentos reformados brasileiros um mea-culpa. Com quase um século de presença efetiva no Brasil, pouco fizemos. Quase sempre nos alienamos do debate político, adotando a posição de vítimas diante da “esmagadora maioria católica”.

Na Europa e nos Estados Unidos, os protestantes construíram um sistema de representação coerente, com forte elo entre a prática e o discurso. Lá, os políticos nada mais são do que “fantoches” nas mãos de uma maioria organizada e fiscalizadora, enquanto que aqui ocorre exatamente o inverso. Somos uma massa de fantoches pronta a baixar a cabeça ou a aplaudir entusiasticamente ao “homem de Deus”. O famoso ditado de que cada povo tem o governante que merece, parece valer. Enquanto nos comportarmos como um curral, continuaremos encurralados.