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Você acredita em Escola Dominical?

O teólogo e médico Angelo Gagliardi Júnior, 53 anos, escreveu o livro Você acredita em Escola Dominical? no fim dos anos 1990, no qual debatia a crise desse modelo de ensino. Em entrevista à CRISTIANISMO HOJE, ele mostra que o tema continua atual. Data da entrevista 17/10/2009

CRISTIANISMO HOJE: Que tipo de experiências o motivaram a escrever o livro “Você acredita em Escola Dominical?”

Amor desde a infância pelo estudo da Bíblia e inconformismo pela forma com que as nossas Escolas Dominicais vinham desempenhando o seu ministério em nossas Igrejas desde sempre , o tipo de “formação” , o tipo de “crente” que ela vinha “preparando” frágeis , imaturos, inexperientes, desmotivados.

A visível prática em nossas Escolas Dominicais da Anti-Reforma Protestante , afastando a Bíblia das mãos do povo , desestimulando o seu estudo , meditação e prática. A ênfase prioritária às metodologias eclesiásticas já caducas, o aferrar-se às revistas ralas da denominação para “manter” o controle doutrinário.

O abandono completo de um sério investimento em material para pesquisa , formação , e instrução do corpo docente , bem como de uma escolha responsável e criteriosa do mesmo .

Um dos grandes questionamentos da nossa matéria também é o formato convencional da EBD que muitas igrejas se recusam em adotar, você acha que isso é motivo para que não tenham esse ministério?

Nunca enfatizei o formato, nem o apego a uma exclusiva metodologia , ou sequer a um único material didático acessório ou complementar. A Escola está posta como ministério na Igreja para promover o conhecimento de Deus, revelado em Cristo Jesus , a instrução , a formação , a maturação do povo de Deus através do ensino , da meditação , do compartilhar da Palavra de Deus , em pequenos grupos homogêneos ( separados por maturidade cristã ou interesses comuns), com a possibilidade da troca de informações e experiências , num ensino ordenado, progressivo , didático e conduzido pelo E.Santo , através de vidas piedosas e comprometidas com o ministério do ensino . Gente sendo salva e entendendo que seus propósitos de vida com Deus incluem adorá-Lo , reunirem-se em família cristã , desenvolverem algum (ou alguns) ministério(s) na comunidade , crescerem e amadurecerem sadiamente , e evangelizarem a outros.

Quais as principais mudanças da EBD de 30 anos atrás para a de hoje?

Vejo apenas esforços aqui e ali no sentido de tentar vencer as enormes dificuldades estruturais e de logística que as EBD enfrentam, mas sem muito resultados positivos . Basicamente os problemas são os mesmos com o agravante de que, 30 anos depois, o Evangelho é apresentado hoje numa visão mais utilitária , superficial , hedonista , sem ênfase ao necessário conhecimento da Palavra , ao arrependimento , à mudança de vida e ao compromisso com o Senhor .

Aponte os principais pontos que evoluíram e os que regrediram na EBD?

A Escola Dominical é uma escola , e como tal tem que ser pensada , e trabalhada . Até as mudanças , quando realizadas, não podem ser mumificadas , cristalizadas , dogmatizadas. Creio que evoluiu o fato de hoje haver bem mais igrejas , comunidades , denominações , questionando-se , e pensando em buscar soluções e alternativas . Isto era impensável há 30 anos atrás , matava-se o povo de fome com absoluta frieza e dureza , em nome da tradição denominacional. O que regrediu, foi o cada vez maior desapego ao ensino e manuseio da Bíblia , ela mesma , como material central de estudo da Escola.

Até aquelas igrejas que fizeram mudanças na EBD , equivocaram-se ao substituírem o estudo das Escrituras por livros , apostilas , testemunhos , etc… É contudo a Bíblia a Palavra de Deus , o alimento , a espada , o mel , o fel , a lâmpada … Ela é insubstituível como instrumento de Revelação de Deus .

Quais são os maiores benefícios que esse ministério proporciona à Igreja?

A Educação Religiosa faz-se prioritariamente ( ainda que não exclusivamente) na Igreja por meio da EBD. Púlpito , células , sociedades internas , reuniões de oração , retiros , congressos , seminários , são parte deste processo educacional , mas nada disto substitui a EBD . Ela evangeliza , instrui , gera crescimento e amadurecimento , estimula, desafia , corrige , exorta , integra etc.. A EBD não é uma das sociedades internas da Igreja , e por isto não pode competir com estas , por tempo,pessoal,recursos etc… A EBD é a Igreja sendo instruída , trabalhada , amadurecida , preparada , para servir às sociedades internas . Ela só pode ser tratada como prioridade na Igreja.

Uma EBD forte , eficiente , Bíblica , inevitavelmente proporciona uma comunidade sadia, viva , quente , madura , evangelística , missionária , integrada. Muitos pensam que boas e ativas sociedades internas ou até mesmo um fervilhante , útil e necessário projeto de células na Igreja podem tornar irrelevante ou dispensável o ministério da EBD . Isto é um sofisma , um “canto de sereia” podendo conduzir igrejas ao naufrágio da raleza , desnutrição e do ativismo. Há sim características semelhantes entre estes ministérios como trabalhar em pequenos grupos , a oportunidade de testemunhos e participações individuais , bem como acompanhamento e “pastoreio” de indivíduos,aliviando a centralização desta missão e responsabilidade de estar exclusivamente sobre o pastor da comunidade.

Por que não investimos também tempo na escolha e preparação de líderes para professores da EBD ? Por que não podemos deixar os alunos da EBD sob o pastoreio dos seus professores e secretários das classes da EBD ( assemelhando-se ao que Filipe e Barnabé faziam no relato de Atos dos Apóstolos) ? Por que não possuir uma estrutura ou um projeto de EBD com classes semanais substituindo ou complementando a EBD dos domingos ? São alternativas que podem complementar os ministérios desenvolvidos pelas sociedades internas e pelas células. Só a EBD pode trabalhar com grupos mais homogêneos , e ela mesmo homogeneizar ( com os mesmos conhecimentos básicos ) toda a comunidade .

Quando o senhor fala no livro a respeito de credibilidade, questiona a respeito da nomenclatura do ministério. Muitas igrejas têm usado essa estratégia, mas são criticadas, pois além da mudança do nome, também fazem mudanças na estrutura, o que o senhor pensa sobre isso?

Não se trata de mudar apenas porque é preciso mudar . Não basta simplesmente mudar o nome, ou o material didático , ou a grade de horários e temática ! Talvez frequentemente vá ter que passar por aí também , mas a questão é muitissimo mais profunda , é uma questão de visão , de importância , de prioridades , de filosofia . Sem que estas coisas mudem primeiro , nada dará resultado. São vinhos novos (às vezes) em odres velhos ! São conceitos e princípios intimamente , celularmente entranhados!

Ninguém mais põe fé na EBD , nem os pastores ! O tempo decorrido , as experiências inúmeras fracassadas , as estruturas paleontológicas mumificadas , as tentativas transformadoras que também não foram aperfeiçoadas ou revisadas , os parcos e ultrapassados recursos didáticos e pedagógicos disponibilizados , os modismos , as enormes necessidades administrativas X tempo escasso dos pastores , a Biblicamente profetizada frieza espiritual , a escassez de líderes , o ativismo na Igreja , os inúmeros compromissos de trabalho secular que envolvem hoje as famílias, os variados teleevangelistas , lutam em favor do esvaziamento da EBD. Há projetos novos , alternativos , bem formatados , prontos para consumo , contando com bons argumentos Bíblicos,que,como já disse anteriormente,parecem substituir a contento ( até com vantagens na visão de alguns) a EBD.

Como é possível resgatar no coração dos cristãos a importância/utilidade da EBD?

Só com a participação verdadeira e comprometida dos líderes e pastores das comunidades. O púlpito exalta o pregador . As sociedades internas e as células são, administrativamente falando, mais fáceis de serem operadas , municiadas , gerenciadas e aliviam grande parte do descomunal peso transferido equivocadamente para as costas do pastor . Contam ainda,como já disse anteriormente , com fortes argumentos Bíblicos a seu favor e estrutura e material já prontos . Mas quem proverá o ensino da Palavra de forma cuidadosa , metódica , ordenada , progressiva (do leite progredindo ao sólido) , clara e inteligível , administrada adequadamente ( a cada um segundo a sua necessidade e/ ou interesse) , para grupos homogêneos ( não por endereço ou por apreço a determinado líder) , planejada e revisada segundo as necessidades contemporâneas de cada comunidade ? SÓ UMA BOA ESCOLA DOMINICAL!

Todos os avivamentos apresentados em especial no V.T. , possuem, como instrumento de Deus, a Sua Palavra . Esta ,anunciada, pregada , ensinada , desde que ouvida e entendida , acompanhada sempre pela presença e pelo sopro do Espírito Santo. É só investir um tempinho de meditação nos textos muito conhecidos de : II Rs 22 e 23 ; Ne 8 a 10 ; Ez 37: 1 – 15 . Quem quer experimentar Avivamento? Só através do ouvir da Palavra anunciada com a unção do E. Santo.

O senhor acredita que um dos maiores problemas da EBD atual é a falta de competência dos ministros? A geração Y (da Internet) não se contenta com formatos tradicionais e pessoas despreparadas?

A Wikipédia nos socorre : A Geração Y é um conceito em Sociologia que se refere, segundo alguns autores, aos nascidos após 1980 e, segundo outros, de meados da década de 1970 em diante.

Esta geração desenvolveu-se numa época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade econômica. Os seus pais, não querendo repetir o abandono das gerações anteriores, encheram-nos de presentes, atenções e atividades, fomentando a sua auto-estima. Cresceram vivendo em ação, estimulados por atividades, fazendo tarefas múltiplas. Lidando com Power point e Netbooks . Acostumados a sempre conseguirem o que querem. Eles tem se tornado o público-alvo do consumo de novos serviços e na difusão de novas tecnologias,público exigente e ávido por inovações.

Claro está que uma Escola pedagogicamente atrasada , deficiente em instalações e conforto , recursos didáticos paupérrimos( lousa,giz ou Pilot ) ,ministrando sobre um livro que já foi escrito há mais de 2000 anos, só pode obter sucesso se seus ministradores forem gente de Deus , comprometidos , piedosos , ungidos e bem preparados , falando aos corações e mentes com clareza , propriedade,adequação e utilidade , sob a graça e o poder de Deus. Quando há graça,unção e poder ,até mesmo a falta de recursos didáticos torna-se imperceptível. Assim creio que falta de unção agrava muitíssimo a falta de competência pedagógica .

Onde estão estes ministradores ungidos e preparados ? Aí estão as grandes chances de encontramos uma EBD relevante . Agora organizemo-la e vamos supri-la com o que de mais moderno e atual podemos contar em termos de recursos didáticos , em ambiente agradável e tão confortável quanto a comunidade possa prover e a temática ministrada mereça .

Por que há falta de dedicação por parte da igreja e de seus líderes no investimento da EBD?

Por todas as enormes dificuldades envolvidas em encontrar e formar um corpo docente competente e confiável , responsável e comprometido , disponível e envolvido . Pelas dificuldades em estruturar e gerir uma EBD relevante ( logística,currículo , material didático , corpo docente e discente , etc ). Pelas muitas frentes de investimento dentro da Igreja a consumir os freqüentemente poucos recursos, limitando o aparelhamento dos espaços e a compra de material didático .

Pela tradicional história de absenteísmo e ineficiência da EBD .Pelo tipo de evangelho pregado em muitas igrejas evangélicas , priorizando o púlpito e os cultos públicos , em detrimento do estudo metódico, em pequenos grupos,das Escrituras . Pela moderna alternativa , bem apresentada e preparada , do trabalho de pequenos grupos semanais , entendida por uma minoria (ao meu ver equivocadamente) como substituta da EBD . Mas sobre tudo isto ,uma enorme necessidade de Avivamento espiritual no meio do povo de Deus.

FONTE: Cristianismo Hoje

Observador do seu tempo

Durante muitos anos, a voz de sotaque inconfundível foi familiar aos crentes brasileiros: “Que Deus os abençoe rica e abundantamente”, dizia o fundador da Igreja Pentecostal de Nova Vida pelas ondas da Rádio Relógio Federal.

O missionário canadense Robert McAlister, carinhosamente conhecido no Brasil como bispo Roberto, teve papel destacado na inserção do Evangelho entre as classes médias urbanas. A denominação que fundou ajudou a mudar o conceito da sociedade acerca dos evangélicos – e, passados dezesseis anos de sua morte, seu legado é incontestável. “Ele deixou um exemplo de seriedade e valorizou a vocação pastoral”, diz, com orgulho, seu filho e sucessor no ministério, Walter McAlister Jr. (foto)

Mas os tempos e a Igreja Evangélica são outros. E Walter, mais do que ocupar o púlpito que um dia foi de Roberto, hoje é um analista do segmento no qual nasceu, cresceu e construiu sua carreira ministerial. Aos 53 anos, o bispo está lançando O fim de uma era (Anno Domini), livro no qual fala como observador e participante ativo do movimento evangélico nacional, com todas as suas facetas, crises e paradoxos. Mas a experiência própria não é a única credencial que ostenta – Walter, nascido nos Estados Unidos e naturalizado brasileiro, tem uma sólida formação acadêmica e teológica, que inclui os cursos de graduação e mestrado em disciplinas como psicologia e estudos bíblicos na América do Norte. Ordenado ministro do Evangelho em 1980, ele hoje é o bispo primaz e presidente do Colégio dos Bispos da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida, entidade que agrega 140 congregações.

O quadro que emerge de seu livro não é animador. Walter prevê o fim da Igreja – não o corpo místico de Cristo, que segundo ele “nunca falirá”, mas o atual conceito de igreja no Brasil. “A Igreja Evangélica hoje não cresce, incha. A diferença é que um corpo, quando cresce, mostra saúde; já o inchaço é sintoma de alguma doença”, aponta. Como outros indícios desse mal, o bispo aponta a superficialidade, o mundanismo, a falta de ética e a corrupção. “Aliás, no que tange à corrupção do mundo secular, ela em pouco difere da que se alastra nos meios cristãos”, lamenta. Durante esta conversa com CRISTIANISMO HOJE, Walter McAlister admitiu que lhe dói o coração ver a situação da Igreja contemporânea: “Queria ser mais gentil. Mas há momentos em que se faz necessário e urgente dizer a verdade dura, mesmo que isso nos custe muito.”

CRISTIANISMO HOJE – Em O fim de uma era, o senhor analisa a Igreja contemporânea, e o quadro que traça não é nada animador. Trata-se de uma instituição falida?

WALTER MCALISTER – Não, a Igreja nunca falirá. Ela é o corpo de Cristo e consegue sempre atravessar os séculos, mesmo que seja por meio de um remanescente fiel. Mas O fim de uma era trata do conceito atual de igreja no Brasil, e este sim, está prestes a falir. Ela está à beira de uma série de mudanças que serão percebidas como o fim, se não da Igreja como um todo, certamente de um “sonho” ou de um ideal que hoje ocupa o imaginário cristão.

No livro, o senhor chega a falar até mesmo do fim do atual modelo de cristianismo ocidental. Caso esteja certo em seu prognóstico, o que virá depois dele?

Historicamente, o que geralmente se segue a épocas como a nossa é um período de perdas, perseguições e desencanto. Os que se preparam para tais épocas promovem reflexão, semeando para uma nova era de vigor e devoção. Em primeira instância, haverá muito choro, revolta e medo. Haverá quem vá perguntar o que deu errado e os que se calarão, pasmos pelas perdas. Muitos fugirão dos líderes desacreditados. As coisas podem piorar ainda mais. Mas há sempre a possibilidade de renovação em meio aos escombros. O remanescente fiel se voltará para Deus em oração. Haverá redutos de oração intercessória, contrição e comunhão.

Alguns demógrafos preveem que os crentes poderão ser metade da população nacional já por volta da década de 20 deste século. Poucas nações do mundo experimentaram avanço tão notável de um segmento religioso na história contemporânea, fato que é muito festejado por líderes evangélicos – e criticado por outros tantos, que não têm enxergado qualquer mudança significativa na sociedade a partir dessa maior presença evangélica. É um paradoxo?

A Igreja Evangélica no Brasil hoje não cresce, incha. A diferença é que um corpo, quando cresce, mostra saúde; já o inchaço é sintoma de alguma doença. A qualidade da nossa devoção coletiva caiu muito, embora os nossos números tenham crescido. Os que não veem mudança estão equivocados. Mudou muita coisa, sim. No livro, mostro que tanto a sociedade quanto a Igreja Evangélica visível se tornaram mais superficiais, mais fascinadas pelos meios, mais gananciosas – e ficaram menos éticas e menos sérias. Aliás, no que tange à corrupção do mundo secular, ela em pouco difere da corrupção que se alastra nos meios cristãos.

Cada vez mais pessoas famosas, como artistas e celebridades, têm frequentado igrejas, mas essa alegada conversão parece não interferir em seu comportamento. Qual o preço disso para a fé evangélica?

A fé foi banalizada e transformada numa filosofia vazia. Em grande parte, a Igreja perdeu a sua alma. O fato de celebridades afirmarem conversão sem o necessário fruto de arrependimento é o resultado direto, e mais visível, de uma distorção da mensagem cristã. Afirmar que uma profissão pública de fé é o suficiente para que alguém se considere salvo reduz o conceito da salvação a um momento de decisão apenas. Mas Tiago disse que fé sem obras é morta. Muitos chegarão a Cristo, no último dia, fazendo uma “profissão” de fé. Mas obterão uma resposta condenatória, por eles terem praticado o mal. Paulo disse que o justo viverá pela fé, mas também disse que haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça, conforme Romanos 2.7 e 8.

O senhor aponta os líderes evangélicos como grandes responsáveis pela crise da Igreja. Qual a sua avaliação sobre a liderança evangélica brasileira?

A liderança evangélica brasileira reúne de tudo um pouco. Ocupamos um espectro largo, que vai dos mais corruptos e hipócritas aos mais piedosos e angustiados com a situação atual. Há homens muito bons no Brasil que querem servir ao Senhor, mas são pressionados, qual Arão, a fabricar bezerros de ouro para agradar o povo e garantir, por exemplo, uma reeleição a seu posto. Mas também há lideres que vendem seus púlpitos a agendas políticas, ou pior, traem sua vocação sacerdotal se candidatando pessoalmente a cargos eletivos. Há mercantilistas que usam o Evangelho como desculpa para vender seus produtos na TV, enriquecer ou obter benesses de poderosos. Para eles, a Bíblia é um pretexto e não uma autoridade. São pessoas equivocadas ou corruptas, que criam igrejas vaidosas, vazias e superficiais. Por outro lado, há homens que se dedicam, de corpo e alma, ao serviço do povo de Deus. Não são famosos, mas estão dando sua vida em prol do rebanho do Senhor.

Por que a Igreja contemporânea tem abandonado temas antes considerados inegociáveis, como arrependimento, justificação pela fé, juízo de Deus, céu e inferno e segunda vinda de Cristo?

Porque essas não são mensagens populares. Elas incomodam aqueles que procuram na fé apenas um meio de alcançar bem estar. Somos uma civilização narcisista, uma sociedade que define o mundo a partir da sua própria vontade. Como já aconteceu inúmeras vezes ao longo da história da Igreja, a proclamação do Evangelho hoje rende-se muitas vezes às questões do dia a dia, da moda ou dos anseios da sua geração.

E quanto aos assuntos básicos da fé e da prática evangélica, como batismo, liturgia e pecado? Na sua opinião, as igrejas têm falhado no ensino?

A Igreja sofre, de modo geral, de um analfabetismo bíblico e teológico, bem como uma miopia histórica surpreendente. Pelo nível de ignorância bíblica que percebo na maioria dos cristãos, associado à ausência de piedade demonstrada pelo povo de Deus, eu diria que alguém está deixando a dever. Esse problema não acha sua fonte no rebanho, mas nos pastores. É bom lembrar que foram os líderes das sete igrejas do Apocalipse que foram cobrados pela condição dos rebanhos.

Evangélicos sempre criticaram católicos por suas concessões à religiosidade popular e às superstições religiosas. A Igreja Evangélica brasileira pratica hoje uma fé sincrética?

Sem dúvida! No que diz respeito à religiosidade popular, já ultrapassamos os católicos. Aliás, de uns tempos para cá, os católicos até estão copiando as nossas práticas populares.

É possível falar-se em unidade do Corpo de Cristo diante da infinidade de igrejas e denominações que existem hoje?

A unidade do Corpo de Cristo não é um projeto, é um fato. Ao mesmo tempo, Paulo disse que é necessário que haja divisões entre nós para que os aprovados sejam conhecidos, conforme I Coríntios 11. Logisticamente, a união institucional é impossível; sempre foi assim, desde a Igreja do primeiro século, com todas as suas divergências e ramificações. Todavia, há uma só Igreja. Quem a vislumbra como um todo vê algo estranhamente animador: há membros da Igreja invisível atuando em todos os arraiais. Há pessoas piedosas, devotadas a Cristo, com todos os seus defeitos, erros de doutrina e diferenças, que estão contribuindo para o crescimento do Reino de Deus.

Por que a evangelização clássica, aquela da visitação a lares e hospitais, dos cultos ao ar livre e do evangelismo pessoal, foi abandonada pelas igrejas?

Bem, não estou ciente de tal abandono. Há ainda muitas igrejas que visitam lares e realizam evangelismo em hospitais ou prisões. Acontece que a comunicação vem sofrendo uma revolução incrível. Talvez, no caso de cultos ao ar livre, eles tenham sido substituídos por novas formas de proclamação. Mas concordo que não há o mesmo zelo por almas perdidas que vi quando jovem. Talvez tenhamos nos tornados frios e sem compaixão pelos que estão se perdendo. É um fato triste e denuncia o esfriamento do nosso amor, inclusive pelo Senhor.

Pode-se dizer que o neopentecostalismo é um movimento de fé genuinamente evangélico?

Antes de tudo, é fundamental aqui definirmos bem os termos evangélico e neopentecostal. Primeiro: o termo neopentecostalismo não é para mim um conceito cronológico, no sentido de um movimento que evoluiu com o passar do tempo a partir do pentecostalismo e que, por isso, configuraria uma nova etapa do pentecostalismo. Nada disso. Quando falo de neopentecostalismo, refiro-me a algo que evoluiu a partir da invasão de valores neoliberais e materialistas na periferia do antigo pentecostalismo. O que resultou dessa mutação é uma espiritualidade formada em função de valores e anseios seculares, mundanos.

O que deu certo e o que deu errado no neopentecostalismo brasileiro?

O que deu errado é que eles acabaram formando valores anticristãos e levam pessoas a segui-los. Nesse caso, expandir esse tipo de fé não é nenhum mérito – na verdade, é um problema. O que deu certo – e eu não diria que “deu certo”, mas que funcionou – para o neopentecostalismo foi atender certos anseios das massas, no que se refere aos desejos dessa geração, e oferecer soluções fáceis, como qualquer profissional de marketing faria. O povo se sente explorado, impotente e vitimado. Assim, a oferta de uma certa ilusão de poder adquirido é tudo o que o povo quer. Por isso, os neopentecostais crescem numa velocidade impressionante.

A fé como produto de consumo, onde a bênção está diretamente ligada à atitude do devoto diante da organização religiosa, é a ênfase na mídia produzida pelos grupos evangélicos, particularmente na TV. É uma maneira legítima de divulgar a fé?

De forma alguma; é antibíblica, pois Deus fica em segundo plano, enquanto o cliente – o necessitado – fica em primeiro. Em vez de pregar submissão a Deus e confiança na sua vontade, que pode até se manifestar por meio de cura ou resposta a oração, vemos o benefício proclamado como o bem principal. Isso é idolatria. Além do que, a televisão em si é um meio comprometido e incapaz de formar conceitos cristãos. A presença de pastores na televisão é equívoco. Um equívoco bem-intencionado, mas ainda assim um equívoco.

A Igreja Cristã Nova Vida é neopentecostal?

Não a considero neopentecostal, como muitos a classificam, pois ela nem de longe compactua com esses valores e anseios. Somos “neo” por termos sido fundados há pouco tempo, em termos históricos, e somos “pentecostais” por crermos na continuidade dos dons manifestados no dia de Pentecostes. Mas não somos neopentecostais, pois rejeitamos essa espiritualidade mundana e todas as suas práticas. Na verdade, as origens da Igreja Cristã Nova Vida se reportam à Rua Azuza, em Los Angeles, em 1906. Meu tio-bisavô, R.E. McAlister, levou a mensagem pentecostal de lá para o Canadá, onde ajudou a fundar as Assembleias de Deus canadenses. Seu sobrinho, Walter – meu avô –, foi superintendente nacional durante os anos 50 e o filho dele, Robert, foi o nosso fundador. Fomos fundados, então, em cima dos firmes alicerces de Azuza e não de movimentos análogos posteriores. Assim, meu pai não “brotou” no Brasil com uma nova teologia inventada; ele deu continuidade à teologia clássica que vinha se desenvolvendo em seu país desde o avivamento de Azuza.

Seu pai, carinhosamente chamado pelos crentes brasileiros de bispo Roberto, teve participação direta na explosão do neopentecostalismo. Diversos líderes dessa corrente – Edir Macedo, fundador da Igreja Universal; Romildo Soares, que deu origem à Igreja da Graça; e Miguel Ângelo, da Cristo Vive – são oriundos da Igreja de Nova Vida e foram seguidores de Roberto. Olhando agora em perspectiva, como o senhor avalia este legado? Acha que o bispo McAlister cometeu equívocos em sua trajetória ministerial?

Todos cometem equívocos. Mas qualquer pessoa com um mínimo de informações não estereotipadas e superficiais sobre o bispo Roberto sabe que não se pode atribuir as práticas neopentecostais negativas aos equívocos do meu pai. Veja que muitos ex-católicos fundaram seminários evangélicos conceituados, mas ninguém aponta o papa como pai desses seminários.

Ora, do mesmo modo, é um equívoco apontar meu pai como ligado diretamente a esses movimentos. O fato de a Nova Vida ter sido o lugar onde esses líderes começaram sua jornada cristã não faz de meu pai seu mentor. Basta ler seus livros, como O encontro real, Dinheiro – Um assunto altamente espiritual e Bem-vindo ao Reino de Deus, entre outros, para perceber que, mais de trinta anos atrás, ele já denunciava como negativas as práticas que depois se tornariam tão conhecidas e associadas ao mundo neopentecostal.

Por que a Nova Vida dividiu-se em duas correntes?

Porque houve quem não concordasse com a direção que dei à denominação após a morte de meu pai. Houve ainda quem vislumbrasse outro para sucedê-lo como primaz. Eles estavam no seu direito de achar isso.

Isso não foi resultado da descentralização administrativa, já que cada igreja local recebeu autonomia?

Bem, vamos considerar que ajuntamento de facções não constitui união. Ao darmos independência, cada um pôde escolher pertencer ou não. A união tornou-se muito mais legítima, uma vez que passou a ser uma questão do coração e não de um nome em comum apenas. A Igreja Cristã Nova Vida é uma associação voluntária de igrejas independentes, que afirmam o bispo primaz como o seu pastor. Mas cada pastor opta livremente por seguir minha liderança, que é pastoral em palavra e exemplo. Os líderes que não desejam continuar a andar conosco estão perfeitamente livres para sair, sem perder pensão ou plano de saúde, nem tampouco a sua igreja.

A minha atuação, assim como a do Colégio de Bispos, funciona como numa igreja local – só que os nossos membros são ministros ordenados. Nós velamos pelo bem estar de cada pastor, pela ética, pela harmonia doutrinária e pela transparência e a responsabilidade fiscal. Os que desejam andar conosco empenham sua palavra de viver dentro desses parâmetros, afirmados anualmente na assinatura da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida.

Uma reunificação das diferentes vertentes hoje faria sentido?

Isso não me parece plausível. Uma reunificação teria de passar pelas mesmas questões que nos separaram desde o início. Hoje existem muitas “Novas Vidas”, igrejas que saíram de nós e de algum modo mantêm o, digamos, sobrenome por se reportarem ao bispo Roberto como fundador. Não há planos para reunificá-las. Acho que seria como querer transformar o português, o espanhol e o francês novamente em latim. Muito tempo passou, doutrinas foram reavaliadas, posturas foram firmadas e cada linha de atuação acabou por se distanciar das outras. Embora tenhamos esse mesmo sobrenome, somos igrejas realmente diferentes.

As diferenças entre igrejas tradicionais e pentecostais já não têm a mesma diferença de outros tempos. É como se houvesse uma terceira via teológica, misturando as características dos dois grupos. O senhor acha isso bom ou ruim?

Para responder, é preciso analisar caso a caso. Há igrejas tradicionais que realizam cultos nos moldes neopentecostais. Não creio que isso seja benéfico. Pelo contrario, é um modus operandi esquizofrênico, pois nos cultos tradicionais essas pessoas abraçam as máximas da tradição, mas em determinados momentos abandonam essas máximas para desfrutar de métodos neopentecostais.

Por outro lado, há pentecostais que estão se reavaliando. E, consequentemente, buscando trazer do passado práticas e noções bíblicas e benéficas que claramente foram perdidas durante a ruptura entre os tradicionais e os pentecostais, para não falar da ruptura que houve durante a Reforma Protestante. Concordo que houve uma mistura e creio que cada igreja seria muito bem servida pelos seus lideres se voltasse a valorizar suas próprias origens. Afinal, uma tradição não é uma prisão, e sim um lar.

O senhor diz em seu livro que se sente solitário no ministério. Quais os reflexos dessa solidão na vida de um ministro do Evangelho?

Essa solidão nos remete ao silêncio e a uma reavaliação constante de motivações. Ou vivemos perante a face de Deus intencionalmente ou buscamos nos outros a justificação de nosso ministério e nossa vida. O primeiro é um caminho difícil, mas necessário. O segundo é vaidade e correr atrás do vento.

por Carlos Fernandes
Fonte: Cristianismo Hoje

Walter McAlister é bispo primaz e presidente do Colégio dos Bispos da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida

ENTREVISTA com Ageu Heringer - Pastores precisam agir como Davi diante de Natã

Para o psicoterapeuta Ageu Heringer Lisboa, líderes evangélicos são vítimas da negligência em relação à própria saúde psíquica.

Qualquer observador do meio evangélico – tanto os "de dentro" quanto os de fora – com um mínimo de isenção sabe que a liderança atravessa um momento de grave descrédito perante a sociedade. Os desmandos de muitos pastores, que se arvoram o direito de gerir as igrejas como extensões da própria casa, e a falta de zelo em manter uma conduta íntegra, são geralmente os caminhos mais curtos para a queda.

A crise de integridade que assola o ministério cristão tem causas nem sempre claras, mas seus efeitos estão aí, à vista de todos. O psicólogo e terapeuta Ageu Heringer Lisboa conhece essa realidade de perto. Com experiência clínica de 34 anos, ele tem atendido muitos crentes – e por seu consultório passam também pastores e dirigentes evangélicos. É claro que, por ética profissional, ele não pode pormenorizar casos particulares – mas o quem ele tem visto, em termos gerais, é preocupante. "É um segmento normalmente avesso a buscar ajuda psicológica, por receio de se expor perante os colegas e os liderados", comenta. "Geralmente, os pastores deixam os problemas se acumularem anos e anos, sempre empurrando com a barriga, acreditando que encontrarão a saída sozinhos". Não encontram – e o resultado pode ser devastador, tanto para a vidas pessoal como para o ministério.

Mestre em ciências da religião, escritor e um dos fundadores do Corpo e Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), Ageu integra a Associação Brasileira de Terapia e Pastoral Familiar e dirige seminários para casais, além de prestar consultoria para grupos ministeriais. Para ele, o episódio bíblico envolvendo o rei Davi e o profeta Natã, que corajosamente denunciou os pecados do monarca, é cada vez mais difícil de se repetir. "Quem aspira ou ocupa posições de comando, junto com os privilégios da posição, deve arcar com o ônus da visibilidade e do lugar que ocupa no mundo das representações sociais", opina o especialista. Ageu Lisboa concedeu a seguinte entrevista a CRISTIANISMO HOJE.

CRISTIANISMO HOJE – Qual a diferença entre integridade e caráter?

AGEU LISBOA – Caráter é o núcleo íntimo da personalidade, um centro irradiador de valores que caracteriza uma pessoa. O caráter expressa uma força espiritual organizadora da psique, uma dada estrutura básica e resistente a mudanças. Quem colocou este assunto no centro de seu sistema de psicologia foi Wilhelm Reich. A estrutura do caráter tem a ver com o "todo orgânico", o biodinâmico marcado pelas vivências prazerosas e por aquelas que causam desprazer; os comandos verbais e condicionadores que recebemos, em especial as mensagens emocionais nos ambientes formativos dos primeiros anos. Já integridade pode ser definida como aquilo que é digno de confiança, que se apresenta completo, sem maquiagem, com o melhor de sua natureza. Aplicados em humanos, seria uma qualidade moral positiva, que faz a pessoa agir segundo a verdade e se orientar com justiça.

Então, o que faz uma pessoa ser íntegra?

Ser acolhido e educado num ambiente amoroso e justo é o maior estímulo, sem dúvida. Receber uma formação espiritual em que se aprenda a conviver com limites e partilhas. À medida que deixamos a infância, espera-se que caminhemos rumo a uma maturidade psíquica e política, assumindo plenas responsabilidades por nossa vida. Viver se traduz, assim, por escolhas e respostas que carregam sentidos e valores, gerando efeitos sobre os outros e em nós mesmos. Em todo o tempo, estamos nos comportando ativa ou passivamente. Se somos pouco conscientes, predominará o instinto e o automatismo; então, coisa boa ou má poderá sair daí. Como membros da raça humana, pertencemos a um habitat que gera exigências éticas sobre todos. Não podemos ignorá-las e agir segundo nosso próprio desejo ou vontade particular, desconsiderando outros, pois nem ao menos nos fizemos a nós mesmos – somos construídos e vivemos articulados socialmente, reconhecendo e honrando o laço social. Assim, contribuiremos para a paz e a justiça.

A vida religiosa e o Evangelho, mais especificamente, são uma maneira de se alcançar um nível moral mais elevado?

Não e sim. Religiosos de tempo integral, de todas as religiões, preservam culturas, servem às populações e são depositários de muita confiança popular. Mas têm lá seus problemas. Conventos e seminários não são garantia de santidade nem bondade. O Papa Bento XVI tem assumido a vergonha e a culpa por tantos pedófilos na Igreja Católica. No campo protestante e evangélico, temos também nossos porões obscuros. Centros de tratamento de vítimas de abusos sexuais e violência doméstica têm grande presença de pastores entre os violadores. A religiosidade mal instruída, estreita, moralista e fanatizada é uma praga encontrada nas mais diversas expressões ditas religiosas. Os talibãs, excrescência perversa e sádica no islamismo que aflorou nos anos 1980, e os ultra-ortodoxos judeus, que mandaram assassinar o próprio primeiro-ministro israelense Isaac Rabin, em 1995, são irmãos gêmeos. Pastores que pregam cercos espirituais e desrespeitam ostensivamente cultos afros e católicos seguem na mesma linha. Psicologicamente, tudo isso é uma projeção doentia de sombras do coração, associadas à ignorância cultural. Espiritualmente, o processo revela desconexão com o espírito de Jesus Cristo; e socialmente, é questão para a polícia.

Esse é o "não". E por que também pode ser "sim"?

Por outro lado, o evangelho possibilita a integridade quando seguimos no Espírito de Cristo. Jesus é a expressão da nova humanidade – e o evangelho, tal como expresso nos textos bíblicos, traça o caminho da salvação, da via ética, moralmente superior, marcada pela bondade e justiça. Jesus é uma quase unanimidade, positivamente considerado por filósofos e teólogos de outras religiões e pela maioria dos construtores da psicologia como "homem universal", uma encarnação do ideal ético. Ele mostrou-se bem humorado e sábio ao ensinar, acolheu excluídos; foi forte com os duros, festeiro com os que celebravam. Conhecer a Jesus através das Escrituras, meditando em suas palavras e acolhendo seu Espírito, abre-nos ao grande poder de transformação interior e social de cada pessoa.

Por que líderes e pastores ditos "de bem" são excessivamente cobrados quando cometem um pecado e acabam sendo julgados e execrados – alguns, por toda a vida – pela mesma igreja de que sempre cuidaram?

A natureza do trabalho pastoral em sua acepção bíblica original é a de alguém que vive em comunhão com Deus, é instruído nas Escrituras, tem vocação e preparo para cuidar de pessoas espiritualmente desorientadas e ensinar as Escrituras. Os termos "trabalho pastoral e terapêutico" se assemelham semanticamente, significando "cuidado de almas" ou "cura de almas" – o que traz uma exigência ética específica: a de que se mantenham íntegros, moral e profissionalmente. É compreensível essa cobrança pelo lugar que pastores e líderes ocupam no imaginário popular. Sacerdotes, desde tempos imemoriais, supostamente estão mais próximos da divindade ou conhecem o mundo espiritual. Do mesmo modo, se espera que filósofos, juízes e psicólogos apresentem comportamentos coerentes e moralmente sublimes. A sociedade necessita de referenciais de integridade, precisa encontrar pessoas dignas no meio de tanta bandalheira, imoralidade e corrupção. Quando um líder espiritual incorre num pecado grave, tipo adultério ou falcatrua, isso desperta decepção, revolta e angústia entre seus seguidores.

Isso não seria o tal processo de idealização?

Exatamente. E quanto maior a idealização e até idolatria da figura pastoral, maior a tragédia. Importa considerar que esta idealização da persona pastoral, revestida com uma auréola de santidade, definida como portador de uma unção superior, geralmente é fruto de uma construção conjunta entre o pastor e sua comunidade. O pastor, por necessidade narcísica; a comunidade, por demandar um tipo de "pai" santo. E como os líderes vivem a ensinar os demais, devem se cuidar. Este é o sentido de instruções pastorais que Paulo emprega nas suas cartas a Timóteo e Tito. Quem aspira ou ocupa posições de comando, junto com os privilégios da posição, deve arcar com o ônus da visibilidade e do lugar que ocupa no mundo das representações sociais. O pastor, o líder, está numa posição por demais espinhosa e corre até mais riscos devido ao assédio que recebe. Ele é seduzido com elogios, mobilizado para salvar mulheres com carências afetivas, discipular gente rica e poderosa – e é nestas relações que uma aliança escorregadia pode se estabelecer.

A integridade é uma exclusividade dos salvos em Cristo?

Não! Encontram-se boas pessoas, éticas e bondosas, justas e solidárias, em todos os grupos, mesmo entre os ditos "pagãos". Quem duvida do bom caráter de Mahatma Gandhi, por exemplo? E de madre Tereza de Calcutá? O apóstolo Paulo escreve sobre a revelação de Deus em todo o gênero humano, através da criação e na consciência. Na prática, encontramos pessoas não-evangélicas, mas que receberam boa formação familiar, educacional e ética, que são excelentes cidadãos – gente íntegra, amorosa, verdadeiros exemplos de civilidade e maturidade. E, contrariamente ao que desejamos, temos tantos crentes broncos, mal-formados, imaturos, dando vexame na política, na televisão, com deploráveis deslizes ético-morais... Repete-se então o que Jesus teve de dizer aos que se diziam "filhos de Abraão" e se achavam acima dos gentios e com direitos hereditários ao Reino de Deus. Jesus desmontou essa falácia ao anunciar que os verdadeiros filhos de Deus são os que de todo o mundo o recebem pela fé e passam a segui-lo. O Senhor é tão gracioso que concedeu talentos e potencialidades de bondade para todos, em toda parte.

Mas perante alguns setores, "pastor" virou sinônimo de picareta...

Qualquer observador imparcial do campo religioso brasileiro e com sensibilidade cultural e ética se choca diante desse quadro. O joio cresce junto ao bom trigo e há um descompasso entre o inchaço da presença dos 'crentes' na população do país e a questão ética. Autores, como o professor Mendonça, Paul Freston e Robinson Cavalcanti, já analisaram esse fenômeno. A partir da década de 1950 a configuração do campo religioso sofreu aceleradas mudanças; passaram a predominar as teologias mais subjetivistas e emocionais dos pentecostais. Da periferia do sistema, a pregação evangélica aos poucos chegou às classes médias e à mídia. Sem o mínimo senso de obediência a um coletivo dirigente, por qualquer discordância, alguém se desliga de um grupo e funda o seu próprio. Junto a isso se descobriu uma mina de ouro: insistir em cada culto no recolhimento de imposto religioso. É dito à exaustão que o dízimo é para Deus, que se encontra na Bíblia e que, por isso, é sagrado. No entanto, temos visto muito desse dinheiro ir para o cofre das famílias dos "ungidos". Há uma leitura bíblica mecânica e conveniente ao clero da maioria absoluta das igrejas e grupelhos, que tratam o dízimo – uma ordenança para a Israel dos tempos bíblicos – como lei para hoje, em qualquer circunstância. Essa prática, pouco discutida, na verdade é um tabu que ameaça quem ousa questionar sua validade, o que, por sua vez, é o fator facilitador e atrativo por excelência dos aproveitadores da credulidade popular e fonte de corrupção. Pessoas sem muita instrução, pobres, emocionalmente fragilizadas ou sem maior discernimento são as maiores vítimas. Pastores mauricinhos, que gostam de luxo e viagens ao exterior, mostram que estão possuídos pelo espírito do "capetalismo" e da mentalidade de mercado.

Mas pastores que agem assim são a maioria?

É bom que se diga que os mais de 200 mil pastores evangélicos, ou pelo menos a maioria, são como a população de onde saíram, refletindo sua cultura, vícios e sabedoria. Essa maioria vive com baixos salários, em condições precárias, em meio à violência, sem acesso a saúde, habitação e educação, e nem assim se deixam corromper. O risco maior está com os que buscam os holofotes da mídia, os que desejam a glória de uma grande igreja a seus pés, adeptos do espúrio evangelho da prosperidade – o antigo evangelho de Mamon e Midas.

No romance Crime e castigo, de Dostoievski, o estudante Raskolnikov mata sua idosa senhoria apenas para conhecer o sentimento divino de ser o mestre da vida e da morte. A busca pelo poder também é uma das principais origens das falhas de caráter dos pastores e lideranças cristãs?

O ser humano é naturalmente atraído pelo poder, seja para bajulá-lo e se beneficiar dos favores de quem manda ou para dominá-lo e ser admirado. José, filho de Jacó, quando ainda imaturo, procedeu provocativamente com os irmãos, colocando-se como o centro da família. Lúcifer ambicionou o poder celestial e sua cobiça resultou na primeira queda. Adão e Eva foram tentados justamente com a oferta satânica de poder saber e ser como Deus – ou seja, almejaram o poder por excelência. Por que existem tantas revistas e programas que enfocam o mundo dos ricos e famosos, senão por esta atração fatal que o poder exerce nos incautos e nos conscientemente ambiciosos? E a história humana não é a história do jogo do poder, num darwinismo onde predomina o mais forte? Não é a lógica do mercado materialista? Não é a prática de nações contra nações? É algo de base instintiva, que a Bíblia chamará de carnalidade. Então, é questão que atinge a todos, incluindo pastores. Lidar com esferas de poder é muito importante e necessário, sendo parte da dinâmica social. A questão é manejá-las com ética, com orientação dos valores preconizados por Cristo, que disse: "O meu reino não é deste mundo". Jesus Cristo criticou os dominadores deste mundo e trouxe outra lógica – a do amor ao próximo, a do espírito de serviço, e não o de poder.

Além da má fé, do abuso de poder e outras coisas, falta também preparo bíblico e até emocional a muitos desses pastores?

Sem dúvida. Outras razões para a má fama de pastores e a suspeita pública que recai sobre eles tem a ver com a patente falta de formação bíblica, teológica e emocional da enxurrada de "autoproclamados" bispos, apóstolos e pastores. Em geral, esses líderes dispensaram a incômoda – para eles – e exigente tradição de formação pastoral que percorria o ciclo do despertamento espiritual, da chamada, do preparo bíblico teológico de anos e supervisão. Dizem que é perda de tempo, que o Espírito Santo dá a inspiração necessária... Não se apercebem o quanto de voluntarismo carnal estão tentando santificar. E esse voluntarismo individualista é muito sedutor. Querem um caminho rápido para o poder espiritual. Curioso que ninguém é chamado para servir entre miseráveis; só existe "chamado" para liderar.

O senhor costuma ser procurado por pastores e líderes evangélicos pedindo aconselhamento por conta de pecados e deslizes no ministério?

Eu faço atendimento clínico há 34 anos. Já atendi dezenas de pastores e pastoras, padres, monges, freiras e seminaristas. Monges e padres são indicados por seus formadores, confessores e superiores, hoje bastante abertos à contribuição profissional de psicólogos e psiquiatras. Fomos chamados a conventos e mosteiros para conversações bastante proveitosas sobe a interface fé cristã, saúde psicológica e vocação. O instituto da confissão no âmbito da Igreja ajuda a prevenir o agravamento de problemas. Já os pastores mostram maior medo – alguns chegam escondidos, pedindo anonimato; outros sugerem atendimento em locais alternativos, como restaurantes, devido ao temor de serem vistos por algum conhecido entrando num consultório de psicoterapia. Eles repetem o procedimento de Nicodemus, que buscou Jesus escondido, com medo dos colegas. Trazem queixas parecidas aos de outras pessoas – mas com maior desconforto, pela culpabilidade exacerbada e temor de julgamento até por parte do próprio terapeuta.

Via de regra, quais são as queixas mais comuns?

Geralmente, os pastores deixam os problemas se acumularem anos e anos, sempre empurrando com a barriga, acreditando que encontrarão a saída sozinhos. Quase sempre, dizem não ter confiança em ninguém – daí o motivo de não buscarem ajuda entre colegas, amigos ou familiares. Quando admitem ter amigos ou confessores maduros, têm vergonha de se expor, preferindo manter uma imagem de alguém, digamos, "normal". Essa posição adoece qualquer um, além de ser hipocrisia. Um dia a casa irá cair, pois o reprimido irrompe de formas incontroláveis; daí ser imprescindível e urgente não protelar e buscar ajuda idônea. É preciso parar de jogar para a platéia e viver pela agenda dos outros; há que se respeitar os próprios limites, reconhecer pecados crônicos e, importante, reforçar o anseio pela cura. Assim, virá a libertação de padrões neuróticos. Este é o caminho para a sanidade, que caminha junto com a santidade: o caminho bíblico para um caráter íntegro, santo, saudável.

A resistência de pastores a buscar ajuda psicológica decorre desses fatores?

Para eles, admitir a necessidade de buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica é assumir uma derrota inadmissível. É quase uma negação de fé. Só mesmo quando surta alguém da família, a mulher ameaça abandonar o casamento ou um filho se declara gay é que alguns se rendem à evidência de que a onipotência humana não existe. Sem dúvida, pastores e líderes evangélicos, mais do que outras pessoas, se apresentam, em minha experiência, mais resistentes a buscar ajuda psicológica. Vítimas de uma cultura de medo de julgamento por parte de outros, sentem-se cerceados em sua liberdade de ser gente como qualquer outra pessoa. Muitos caíram nessa armadilha da idealização de figuras pastorais como tendo acesso privilegiado a Deus, como entes superiores e com mais forças para resistir a tentações e coisas tais. Há os que estão submetidos a líderes de congregações moralistas e controladores do dinheiro e das idéias. Para saírem desse aprisionamento, esses pastores precisam buscar ajuda externa com profissionais que conheçam e respeitem sua fé.

E o que pode ser feito?

É urgente que se discuta a formação de seminaristas e a consagração de pastores. Temos pastores demais em igrejas confortáveis e centrais, onde se paga mais; e pastores de menos nas periferias e cidades pequenas, bem como nos lugarejos do interior. Encontramos muitos pastores mal formados, auto-investidos, sem supervisão de colegas, sem dedicação a estudos – são obreiros que nem sabem o que é meditação bíblica, e vivem apenas em ativismo religioso. Homens e mulheres hoje montam igrejas com o intuito de viver das ofertas e dízimos arrecadados dos fiéis. São manipuladores do medo das populações, exploradores dos que buscam, angustiados, respostas bíblicas para suas vidas. Quantos não entraram para o ministério atendendo a um impulso juvenil ou um arrebatamento emocional ao redor de uma fogueira ou para cumprir a profecia de alguém? Líderes imaturos, dirigindo comunidades com dezenas ou centenas e pessoas, é algo muito temerário.

A exemplo dos fariseus dos tempos bíblicos, líderes e pastores extremamente legalistas costumam se esforçar mais para camuflar e esconder suas falhas de caráter. Até que ponto isso pode ser prejudicial, sob o ponto de vista espiritual e emocional?

Esses pastores legalistas incorrem num ato falho de compensação psicológica. Eles tentam se convencer de que são puros e intocáveis, acusando os diferentes de hereges, pecadores ou perigosos. Vejam o caso ilustrado por Jesus – enquanto o legalista pecava ao se vangloriar publicamente de não ser como o publicano, este, quebrantado, pedia misericórdia, confessando-se totalmente indigno. Impressiona tristemente saber como setores que se dizem tão apegados à Bíblia são duros, frios, inquisitoriais com os diferentes, com quem é de outra confissão ou religião. São insensíveis socialmente e até impiedosos com os da própria casa. Tragédias familiares, como o suicídio de filhos, divórcio e fugas, têm acontecido em famílias de lideranças rígidas ou fundamentalistas – além, evidentemente, de escândalos sexuais de arrepiar. Isso só vem confirmar o saber psiquiátrico que relaciona obsessivos por limpeza externa a sofrimentos internos de impureza real ou imaginária.

Que personagens bíblicos podem ser apontados como exemplo de gente marcada por problemas de falta de caráter ou integridade?

Bem, os patriarcas Abraão e Jacó cometeram deslizes e mostraram fraquezas. Assim, errando e acertando, dirigindo-se para Deus, alcançaram a estatura de homens de honra. Davi, o rei sábio, pautou sua vida pelo temor ao Senhor – contudo, falhou muito com a família, com os filhos e os amigos. Devemos lembrar que ele abusou do poder e cometeu pecados horríveis. Acontece que ele teve a oportunidade de ser confrontado por Natã, que corajosamente lhe apontou seus erros. O problema é que boa parte dos líderes religiosos são cercados por bajuladores que encobrem seus erros, numa cumplicidade típica de quem não quer perder os privilégios oriundos da proximidade com o poder.

Natã é um bom exemplo de integridade ministerial?

Sim. Pastores precisam agir como Davi diante de Natã. Suas palavras ao rei possibilitaram que este entendesse e reconhecesse seu desvio, pecado e crime. Davi, caindo em si, arrependeu-se e foi curado da alienação. Naquele momento, ele deixou a prepotência; humilhou-se e recuperou sua credibilidade. Seu arrependimento revelou o que se encontrava no núcleo profundo de sua personalidade: um bom caráter. Davi religou-se ao Deus a quem cantara e adorara na juventude, de forma despojada. O resultado é que hoje citamos seus salmos como Palavra de Deus. Ora, se tratamos a Davi com esta benevolência, porque somos tão cruéis e vingativos com irmãos nossos que cometem deslizes leves ou pecados graves? Consideramos o apóstolo Pedro como um homem cheio do Espírito Santo e também ouvimos suas palavras como sendo Palavras de Deus; no entanto, sua biografia é marcada por incidentes, vacilações, ambigüidades e até mesmo a negação e abandono de Jesus. Mas Cristo o reabilitou, chamando-o à consciência e ao amor incondicional. Além disso, Pedro aceitou a disciplina que lhe foi imposta por Paulo, sem guardar ressentimentos – tanto que, em sua segunda carta, trata admiravelmente bem o colega apóstolo, devotando-lhe toda distinção. Esses exemplos mostram o caminho da perfeição. Somos perfeitos no horizonte escatológico na medida em que no dirigimos para o alvo, no caminho da santificação segundo Cristo, o arquétipo do humano.

FONTE: sepal.org.br

Wayne Jacobsen e Frank Viola

Wendy Scoggins: Wayne Jacobsen (co-autor de ‘Por que você não quer mais ir à igreja?’, um autor muito lido e admirado por muitos adeptos da igreja nas casas, não é necessariamente um fã de igrejas caseiras acima de outros tipos de igrejas. Ele ressalta que só porque seguimos o exemplo dos apóstolos por modelarmos de nossa estrutura de igreja na deles não significa que vamos experimentar a vida que eles compartilhavam ou que imitar o fruto trará frutos. Ele acredita que a vida de Cristo precede a igreja, que a vida tem de estar presente e que a vida irá resultar em uma assembléia local de cristãos. Qual é a sua resposta à postura de Jacobsen? Como esse ponto de vista deve afetar os esforços de plantação de igrejas?

Frank Viola: Aqueles que têm lido todo o meu trabalho e me ouvido falar sabe que eu não sou um defensor da “igreja doméstica” por assim dizer. Na verdade, eu entreguei uma mensagem no ano passado à Conferência Nacional da Igreja Caseira onde eu partilhei muitas das minhas preocupações com o movimento moderno de igreja nas casas. Eu também fiz a declaração de que se eu tivesse que escolher entre algumas igrejas caseiras e algumas igrejas institucionais, corria em direção a igreja institucional, com um ritmo alucinante!

Eu também não sou um defensor do que eu chamo “o modelo bíblico” de aproximação à igreja, do qual você parece estar falando aqui. Blueprintismo (cópia) bíblico é a idéia que diz que todos nós devemos fazer é encontrar o padrão “correto” da reunião, no Novo Testamento, imitá-lo, e pronto, vamos ter a igreja. Pessoalmente, penso que esta é uma abordagem errada.

Ao mesmo tempo, acredito que a idéia de uma igreja fantasma, nebulosa também erra o alvo. Esta é a noção de igreja que diz que se você e eu tomarmos um café na Starbucks, já temos “igreja.” Para mim, esse não é apenas um conceito de igreja não-bíblico, mas se explorarmos o seu núcleo, é enraizado no desejo de ter relações sem compromisso.

A noção de igreja local do Novo Testamento é uma visível, localizável, visitável, palpável, autêntico, comunidade cara a cara em uma região local que se reúne regularmente, que cuida uns dos outros de forma consistente, e partilha a sua vida juntos.

Qualquer coisa menos não é um ekklesia local no sentido da palavra no Novo Testamento. Praticamente todos os estudiosos Novo Testamento concordariam comigo aqui.

Quando se trata de uma coisa chamada a igreja, meu coração bate em uma direção. Minha paixão é o Senhor Jesus Cristo – Seu Senhorio, Sua centralidade, sua liderança, sua supremacia, sua auto-suficiência, a sua realidade. Eu só falo sobre a igreja como o acessório para conhecê-Lo, amá-lo, e expressá-Lo na terra com os outros, segundo o propósito eterno de Deus. A igreja flui para forade Cristo, assim como Eva veio de Adão. Ela é uma parte Dele.

Na minha opinião, plantação de igrejas (ou seja, o ministério apostólico ou “trabalho” cristão ) – o que quiserem chamar-lhe – é simplesmente a apresentação do Senhor Jesus Cristo espiritualmente e praticamente a um grupo de pessoas, sejam cristãos ou não-cristãos. Por “apresentar Cristo espiritualmente”, quero dizer que apresenta Jesus Cristo na vida e em profundidade. (Na minha observação, não ouvimos Cristo apresentado desta forma muitas vezes no nosso tempo. Não ouvi por muitos anos embora eu fosse um cristão.)

Quando Cristo é apresentado na vida e profundidade, nossa respiração é arrebatada e nós nos apaixonamos por Ele e pelos outros. Por “apresentar Cristo praticamente”, eu quero dizer dar às pessoas instruções práticas sobre como conhecer este incrível Cristo individualmente e coletivamente – na realidade e em profundidade. Quando Cristo é apresentado desta forma, a igreja – verdadeira, autêntica,vida da igreja orgânica transformadora de vida – emana.

A vida orgânica da igreja pode acontecer espontaneamente, sem qualquer pregação direta, se as pessoas encontrarem o Cristo vivo juntos. Mas normalmente não dura muito. Quando eu estava na faculdade, eu toquei uma explosão espontânea da vida da igreja. Mas ele morreu muito rápido. (Eu também toquei uma vida de igreja orgânica espontaneamente mais tarde. Mas isso é outra história.)

Aqueles que são chamados ao ministério apostólico tem uma dupla responsabilidade, eu creio. Uma é a de impedir a entrada elementos estrangeiros que procurariam sufocar a vida de uma igreja. A outra é a insuflar nova vida em uma comunidade de fé logo que sua vida espiritual fica baixa. Se você estudar o ministério de Paulo, com cuidado, você verá que ele sempre fez isso com as igrejas que ele trabalhou. Para colocá-lo em algumas frases:

Se nós pregarmos a Cristo a um grupo de pessoas, mas não darmos a elas instruções práticas sobre como conhecê-Lo coletivamente, não vamos começar a experiência da igreja.

Se pregarmos a igreja, nós vamos começar um movimento feito pelo homem e teremos um monte de divisões mais tarde.

Se pregarmos que somos os únicos que pregam a Cristo corretamente, vamos acabar com uma seita elitista que vive em seu próprio universo fechado.

Se nós pregarmos a Cristo espiritual e praticamente e exibi-lo em nossas atitudes, nós vamos alcançar a igreja – viva, que respira, e centrada em Jesus.

Parte final de uma entrevista de Frank Viola acerca de seus livros Pagan Christianity e Reimagining Church.

FONTE: http://solomon1.com

Entrevista com Gedeon Freire de Alencar

No dia 19 de novembro, a exatos 99 anos, desembarcaram no porto de Belém, PA, Gunnar Vingren e Daniel Berg. Missão: estalelecer a mensagem pentecostal que haviam recebido na outra América, em terras brasileiras. A entrevista que você vai ler agora foi concedida ao Blog pentecostalismo.wordpress.com e nele publicada em junho desse ano. Boa Leitura!

Gedeon Freire de Alencar é presbítero da Igreja Assembléia de Deus Betesda em São Paulo, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista, diretor pedagógico do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos (ICEC). É membro da Associação Brasileira de História da Religião, Associação de Professores de Missões do Brasil e da Rede de Teólogos e Cientistas Sociais do Pentecostalismo na América Latina e Caribe.

Alencar escreveu o livro de cunho sociológico Protestantismo Tupiniquim: Hipóteses Sobre a (não) Contribuição Evangélica à Cultura Brasileira (Arte Editorial). No ano 2000, em seu mestrado na Universidade Metodista defendeu a dissertação: Todo poder aos pastores, todo trabalho ao povo, e todo louvor a Deus. Assembléia de Deus: origem, implantação e militância (1911-1946). Nessa dissertação faz uma interessante análise da história assembleiana a em sua primeira fase no Brasil.

Nessa divertida entrevista discutiremos um pouco sobre o pentecostalismo (ou pentecostalismos) no Brasil.


Blog Teologia Pentecostal: Qual a importância da Assembléia de Deus para o pentecostalismo do século XXI? Essa denominação ainda consegue influenciar as tendências pentecostais no Brasil?

Gedeon Alencar: A AD é o elemento principal do que eu chamado de ” matriz pentecostal brasileira” (aliás, isto é base de meu projeto de doutorado que não consegui, por diversas razões, levar adiante).

As duas primeiras igrejas pentecostais são AD e CCB. A Congregação, nas primeiras quatro décadas fundamentais para sua formação, é uma igreja étnica- isso não é dito com mérito ou demérito. Além de ser ultra calvinista (talvez mais que o próprio Calvino): se tornou uma igreja fechada. Note: não estou afirmando que isto é bom ou ruim; estou fazendo uma constatação histórica. Hoje ela é bem parecida com o que era há anos atrás. Não mudou quase nada do seu modelo original. Isso implica que, por seu isolamento social, não teve influencia na formulação do pentecostalismo brasileiro, e muito menos, na produção cultural do país.

Já a AD desde cedo se “abrasileirou”, apesar da liderança sueca. Desde os primeiros anos a liderança assembleiana foi tomada (e tomada mesmo…) por nordestinos. A convenção de 30, a primeira, é convocada por líderes nordestinos contra a vontade dos suecos. Não estou inventando nem interpretando, basta ler os registros no Jornal a Boa Semente publicados nos anos mais “quentes” de 28 a 30.

A AD posteriormente, brasileira, nordestina, pobre, simples, periférica, sem dinheiro e ligação com o exterior, que em vinte anos (não com muito dinheiro, TV e política na mão) alcança o Brasil - é uma igreja brasileira, feita por brasileiros, e para brasileiros!

Uma ultima coisa: todos os demais movimentos, denominações e instituições que se “pentecostalizaram” ou se “renovaram” têm, ou tiveram, alguma influencia do pentecostalismo assembleiano. O costume da saudação da “paz do Senhor”, o hinário, o modelo patrimonialista, usos e costumes, a ênfase evangelística, a dinâmica e participação do povo, etc., todas estas questões estão presentes em todos os movimentos pentecostais, por mais independentes que sejam, e são originados da “matriz pentecostal assembleiana”. A AD é que nunca conseguiu capitalizar em cima disso.

02. Em sua dissertação sobre a Assembléia de Deus, o senhor destaca um papel forte da missionária Frida Vingren, esposa do co-fundador Gunnar Vingren, nas importantes decisões eclesiásticas da nascente denominação. Frida Vingren, como mulher, poderia ser classificada com um fenômeno inédito no cenário evangélico brasileiro?

Frida Vingren é, a meu ver, a maior heroína assembleiana e, ao mesmo tempo, a maior injustiçada da história assembleiana. Só se fala em Gunnar Vingren e Daniel Berg – típico de uma historiografia machista. Em 1917, ela sai sozinha e solteira da Suécia, passa nos EUA e vem ao Brasil para casar com Vingren. Aqui canta, ora, prega, escreve mais de 80% do jornal (Boa Semente), faz culto nos presídios, na Central do Brasil, escreve música e poesia, organiza a Harpa, escreve Atas, enfim, dirige a igreja! Seu marido desde o primeiro mês no Brasil é um home doente de malária, é ela quem carrega o piano! É exatamente por isso que ela tem muitos inimigos – desde os cabras machos nordestinos que não querem ser liderados por uma mulher ao seu contemporâneo Samuel Nystron que é contra a liderança feminina. No livro ” História da Convenção”, publicado pela CPAD, o jornalista Silas Daniel, resgata algumas cartas nada amistosas que Nystron e Gunnar trocaram.

Não é inédito porque a religião, não somente o pentecostalismo brasileiro, sempre teve grandes mulheres, mas como sempre marginalizadas. Ainda hoje é assim. Tem uma tese na PUC sobre as mulheres que pentecostais que o titulo diz tudo; “O silencio que deve ser ouvido”. E um trabalho de missiologia da Laura de Aragão, no CEM, é outro primor: “Escolhidas por Deus, rejeitadas pelos homens”

03. Gunnar Vingren não viveu muito para ver o desenrolar de sua obra missionária. Na sua dissertação o senhor especula que a Assembléia de Deus talvez poderia ter tomado “outro rumo” com os Vingren por mais tempo na denominação. Qual seria esse “outro rumo”?
Amigo, eu sou sociólogo, não vidente…

Gunnar Vingren era formado em teologia pelo Seminário Teológico Sueco de Chicago, era a favor da mulher no ministério – sua mulher é a prova disso. Na década de 20, no RJ, consagra mulher ao diaconato. E em sua época, as mulheres participavam, não apenas ouvindo, mas falando e dando palpites nas reuniões da igreja. Em todas as fotos oficiais de convenção tem mulheres. Registra em seu diário que pregou na Congregação Cristã. E também nessa época tinha manifestações de “risos no Espírito” de forma que não podia continuar pregando – se isto tudo é erro ou acerto, isso não é problema meu. Mais uma vez um aviso: não estou inventando nem interpretando. Tudo está registrado em seu livro “Diário de um pioneiro” e no Jornal Boa Semente. Gunnar não era (como os demais suecos e toda a liderança assembleiana), contra o ensino teológico e formação em seminários teológicos; era a favor da mulher no ministério; era bem aberto as demais igrejas de sua época; e tinha um pentecostalismo bem “original”.
Ficou poucos anos da liderança, ademais era um homem doente, como ele mesmo diz “a igreja estar bem liderada por minha mulher e os obreiros”, quem liderava efetivamente era Frida. Levou um golpe da liderança nordestina da época em 1930, foi embora, e morreu logo em seguida. É laureado como herói atualmente, mas em vida foi voto vencido em todos seus projetos.

A AD dirigida por Gunnar Vingren seria bem diferente da que se formou. Melhor ou pior? Não tenho a mínima idéia, mas diferente com certeza.

04. Por que a Assembléia de Deus adotou um discurso tão ultra-conservador nos usos e costumes? A origem marginalizada “sueca- nordestina” seria uma explicação satisfatória?

O “ethos sueco-nordestino” que Paul Freston desenvolve em sua tese, e eu repito na minha (o Freston foi meu orientador e depois participou da banca de minha defesa de mestrado), é uma das melhores explicações para isto, mas não é a única.

Não precisa recorrer a décadas de história, basta ver o presente. Onde e quais as igrejas (sejam ADs ou quaisquer outras) são conservadoras em usos e costumes? Apenas – veja, apenas – nas regiões pobres e mais periféricas. Igrejas em processo de “aburguesamento”, de classe média para cima não conseguem – ou não querem – ser conservadoras. Mesmo as ADs que falam tanto em “preservar a doutrina”, mas se preserva a “doutrina” apenas para os pobres e das igrejas nas periferias. Igrejas sedes e de classe média não tem “doutrina” que as segure. Portanto, neste processo a AD não estar sozinha; isso acontece, e aconteceu, com todas as demais igrejas. Mesmo que alguns queiram ligar o fato de “uso e costumes” a ação do Espírito Santo, lamento, mas isso diz respeito as questões econômicas.

05. Estudiosos como Bernardo Campos, Paul Freston e Robinson Cavalcanti defendem a tese que existe uma “pentecostalização” das igrejas históricas e uma “historização” das igrejas pentecostais clássicas ou de primeira onda. Quais são as implicações desse fenômeno para o mundo protestante?

Sim, isto é visível. O pentecostalismo, no Brasil, vai fazer cem anos, portanto, tem história. “Historizou-se”. O fenômeno religioso é dinâmico e, para mal ou bem, cíclico. Práticas religiosas que eram “pentecostais” anos passados ou décadas, se tradicionalizam. Ademais, se fala em pentecostalismo com fenômeno típico do século XX, mas muito disso já aconteceu em séculos passados nos Avivamentos, nos Movimentos de Santidade, na história de “santos” ou “hereges” medievais.

O mundo protestante vai sempre se “renovar” e/ou se “tradicionalizar” a despeito de todos.

06. Como sociólogo, quais aspectos do pentecostalismo ainda faltam ser explorados pelos estudos sociais, especialmente pela Ciência da Religião?

Temos muitos trabalhos hoje sobre o fenômeno pentecostal na atualidade, mas ainda falta uma delimitação da “matriz pentecostal” (daí meu projeto de doutorado). Agora o universo pentecostal hoje é tão amplo, plural, pitoresco e cheio de novidades que sempre haverá alguma coisa a ser explorada. Como brinco em sala de aula: O fenômeno religioso é tão original, que de tédio a gente não morre!

07. Como conhecedor do pentecostalismo latino, quais são as principais diferenças entres os pentecostais brasileiros e os demais carismáticos desse subcontinente?

Vou indicar apenas duas singularidades do pentecostalismo brasileiro. Em um congresso de sociologia na Costa Rica, tomei um susto quando conheci um pastor assembleiano peruano, um dos mais importantes, que era também o principal líder ecumênico em seu país. Assembleiano ecumênico é escasso no Brasil, mas não América Latina.

A AD, na América Latina, foi fundada e financiada pela AD nos EUA (diferente da AD no Brasil de origem sueca), portanto, a AD latina de fala espanhola é congregacional, como é a AD americana. Qual a AD brasileira é, estritamente falando, congregacional? Eu, particularmente, não conheço nenhuma.

FONTE: http://pentecostalismo.wordpress.com/